"Olha embaixo da cama, apenas os pares de sapatos distintos, amáveis. Vasculha gavetas, papéis antigos e quem sabe importantes, armários, e suas roupas desarrumadas, a desordem habitual de tudo. Bichinhos de pelúcia na estante. Lembranças antigas no mural. Uma pulseira, um jornal de três anos atrás, e vinte ou quinze fotos. Televisão ligada; passa todos os canais, não permanece em nenhum. Nada me agrada, nenhuma sensação me mantém ligada, não me encontro onde me procuro. E as pessoas, cara, essas gentes estão cada vez mais superficiais e desinteressantes, ávidas de alguma vibração conjunta, cúmplice. Preciso da minha própria solidão, para reencontrar tudo que aqui dentro anda bagunçado. E tenho tentado em vão, procurar respostas do lado de fora. Que, incrédula, nunca acho. Reflito, perna direta sob a perna esquerda, perna esquerda sob a perna direita. Em posição de índio. E nada me vêm à mente. Branco, vermelho, figuras psicodélicas. E nenhuma resposta. Nada do que sinto é desvelado. E o que penso, e preferia exorcizar, continua de pé; prontamente para me assombrar, puxar meu pé quando adormecida profundamente.
Lembro: me esvaziar. Dica de tantos, conselho de alguns. Largar de mão o antigo, para alçar novos vôos, mil oportunidades à frente. E não consigo. Preciso de ajuda para largar esse cordão celestial que ainda insisto em segurar - e que, de bom, nada me acrescenta. Te solta, menina.Vai! E se cair? Se a queda for pior que a sensação de estar suspensa no ar, sem possibilidade de me movimento e reclamação? O que seria pior do que se jogar no que ainda não conheço? Decidi: me desprendo. E seja talvez o que Deus quiser; ou, o que eu mais precise. Não as tão questionadas respostas, que tanto vasculhei. Mas sim a vida, a vivacidade do meu sorriso, a utilidade das minhas palavras. Retirar tudo isso tem sido cansativo. Me dói o corpo inteiro. E algumas vezes me pego nostálgica, vislumbrando o horizonte, dando um beijo nas estrelas. Ontem chorei duas vezes, e logo passou. E então, lia algo que me deixasse comovida, ou fizesse respirar mais fundo, e pensava em sumir do mapa - sem vestígios, nem passos e pistas. Tem sido complicado, mas eu rezo e ainda acredito. Quando a gente lembra que já passou por tudo isso, e que apenas faz parte de um ciclo, vê a tal luz no fim do túnel, e fica mais fácil atravessar os dias, dois meses. E sabe que algum dia, vai rir com a mão na cabeça dessa situação toda, e se perguntar: "Deus, eu era assim tão frívola, e fútil, uma boba?" Talvez ele responda que eu fosse uma apaixonada, uma sonhadora. Inconsequente. Quem sabe, ele diga que sem todo esse sofrimento, eu não estaria pronta para receber toda essa completude que eu muito pedi, e aqui nunca chegou; extraviada. Sei que as respostas chegam sempre atrasadas, e quando não mais necessárias. Viver com esse silêncio me mata por dentro oportunamente, mas tem sido melhor, e mais sábio. Essa falta de personagens importantes tem atrasado todo um roteiro, mas acredito que seja nas cenas futuras que tudo se perpetua. E tudo que eu procuro são por quês desenganados, carinho imensurável, e uma distração que valha a pena, que faça sentido. Não achei na saia nova, e nem nos sapatos rosas. Nem na noite de ontem, e no dia de hoje. No chimarrão não sorvi, no bolo muito menos. No perfume, apenas uma saudade que me corta feito faca desafiada - dilacerante. Se não chegar nos próximos dias, eu invento. Porque quando há amor, o faltar a gente cria. Com papéis laminados, e tesoura sem ponta. Cola, para firmar e não deixar cair. Um mundo meu, que não machuque e brilhe aos montes. E tenha dias frios, e com sol, e cheiro de bergamota nas mãos. Muita cor, alguma trilha sonora, e desvios de script, que é pra emocionar furtivamente. Daí sim, durmo feliz e em paz. Boa noite, papai do céu."
quinta-feira, 26 de agosto de 2010
segunda-feira, 16 de agosto de 2010
Se fosse amor
"Não era o que queríamos que fosse. E muito menos foi, o que desejávamos que se torna-se. Luxúria, versus sentimento. Corpo contra coração. Nenhum vencedor, de algumas batalhas, e inúmeras afrontas. Por esta razão, onde nos encontramos no mundo e nos perdemos na vida, atesto: não era amor. Não tinha vocação para este volver; nenhuma. Era muita vontade de um lado, contra desmerecimento do outro. Um caso, contra um descaso inteiro. Enganou por certo tempo, mas podendo avaliar melhor, de longe e com olhar crítico, tenho cada vez mais certeza: foi uma ilusão. Um amontoado de desculpas esfarrapadas, colocadas no lugar mais alto do pódio. Uma patologia. Uma eterna confusão. Porque se fosse realmente amor, nada disso seria em vão.
Se fosse amor, não teria planos descabidos, e promessas quebradas. Não caberia casualidade, e sim, uma dose nobre de veracidade. Manhãs despertadas com beijos despudorados, e vontades pré-aquecidas. Almoços de última hora, e lampejos de idéias fantásticas, teses descobertas, e movimento constante. Emoção intensa, e não paralisia corriqueira. Pique-niques no parque, silêncios confortáveis e surpresas no final do dia, seriam inevitáveis. Infelizmente, afeição é muito mais do que apenas ligações oportunas, e noites quentes; medo de descobrir o outro tão à fundo, e esquecer o caminho de volta à si mesmo. Afeto tem muito mais a ver com dois telefones desligados, e um mundo próprio em conjunto, sendo criado dia após dia, sem longas esperas e sumiços efêmeros. Com muita vontade, e compartilhamento de vidas. Alguns mistérios, pra não ficar demasiado corriqueiro. Gentilezas sob o pé da cama, e uma flor atrás da orelha. Admiração mútua, e conversas intermináveis; com algumas pausas, frases pela metade e palavras de conforto e carinho. Seria o tempo bem aproveitado, e batalhas apoiadas um pelo outro. Metas traçadas, e atitudes em prática. Cada qual com seu caminho, porém com apoio incondicional; duplo e dulcificante. Amor é dois, e não um. Nunca três. Duo, e não trio. Nós, e não eles.
Se fosse amor, haveria integridade. Segurança. Cumplicidade. Quando na verdade, tudo não bastava de um sonho; algumas palavras bonitas, e momentos antes únicos. Sorrisos singelos, e que na verdade, escondiam todo um mundo de meias-verdades, de mistérios desenfreados, agora então arejados. Você gostaria tanto do meu mau-humor matinal, quanto do meu porte graúdo, e eu seria fiel admiradora da sua inconstância infindável e seus cabelos rebeldes. Acharíamos um charme, todo e qualquer pequeno defeito - que era assim chamado, porque amor entre nós não havia. E quando sentimento não há, falhas são apenas falhas; defeituosas e abismais. Talvez se as afinidades fossem maiores, o coração talvez acordasse. O meu tão grande, e apressado, correndo contra o tempo. O seu tão clandestino e amoral; diminuto. Desiguais, e ainda assim, desacordados. Desencaixados. Mas no meu detalhismo excêntrico, em ler tudo que me passa pela frente, e escrever como quem vomita o que tem por dentro e na sua leveza de viver, e se viciar em seriados - enquanto eu mesma prefiro filmes - ficava difícil encontrar um denominador comum, frente à tantas, e gritantes diferenças. Simplesmente porque de amor, essa história não tinha nada. Apenas uma saudade que perdurava aqui, e não ecoava aí, do seu lado de ilha solitária, que é a vida cabalística a que nos submetemos.
Não foi amor. Foi uma hombridade esquecida, uma homogeneidade inexistente, uma angústia ambulante. Algumas corridas de táxi, e um brio acelerado. Um ritmo nunca acertado, notas desordenadas e descompostas. Apenas uma alergia à completude e um temor da felicidade. Uma fuga antes do tempo exato. Muitas palavras, quando o melhor era sair com a cabeça erguida (mesmo quente), e a boca cerrada. Erros, não só de execução, como de partida. Anomalias amáveis, e um crime irresistível de não cometer. Vontade de acertar, e pouca força para alcançar o topo, o feito. Desatino. Se fosse amor, obrigatoriamente, singular seria. Porque não é, e esperei que fosse. Que houvesse no mínimo coragem, ou alguma força maior por trás dessa adrenalina toda, para transformar. Paixão, quem sabe. Paz, não vi. Sair do que não existiu, deixa sempre a pulga atrás da orelha, de como seria se tivesse então deslanchado. O que vale é se lembrar sempre, e cada vez mais que, se não aconteceu, teve motivos suficientes para ficar adormecido. Que assim seja, e as lembranças boas não se percam por entre dias frívolos e cinzentos; perpetuem apenas na memória, e acrescentem como aprendizado."
Camila Paier
Se fosse amor, não teria planos descabidos, e promessas quebradas. Não caberia casualidade, e sim, uma dose nobre de veracidade. Manhãs despertadas com beijos despudorados, e vontades pré-aquecidas. Almoços de última hora, e lampejos de idéias fantásticas, teses descobertas, e movimento constante. Emoção intensa, e não paralisia corriqueira. Pique-niques no parque, silêncios confortáveis e surpresas no final do dia, seriam inevitáveis. Infelizmente, afeição é muito mais do que apenas ligações oportunas, e noites quentes; medo de descobrir o outro tão à fundo, e esquecer o caminho de volta à si mesmo. Afeto tem muito mais a ver com dois telefones desligados, e um mundo próprio em conjunto, sendo criado dia após dia, sem longas esperas e sumiços efêmeros. Com muita vontade, e compartilhamento de vidas. Alguns mistérios, pra não ficar demasiado corriqueiro. Gentilezas sob o pé da cama, e uma flor atrás da orelha. Admiração mútua, e conversas intermináveis; com algumas pausas, frases pela metade e palavras de conforto e carinho. Seria o tempo bem aproveitado, e batalhas apoiadas um pelo outro. Metas traçadas, e atitudes em prática. Cada qual com seu caminho, porém com apoio incondicional; duplo e dulcificante. Amor é dois, e não um. Nunca três. Duo, e não trio. Nós, e não eles.
Se fosse amor, haveria integridade. Segurança. Cumplicidade. Quando na verdade, tudo não bastava de um sonho; algumas palavras bonitas, e momentos antes únicos. Sorrisos singelos, e que na verdade, escondiam todo um mundo de meias-verdades, de mistérios desenfreados, agora então arejados. Você gostaria tanto do meu mau-humor matinal, quanto do meu porte graúdo, e eu seria fiel admiradora da sua inconstância infindável e seus cabelos rebeldes. Acharíamos um charme, todo e qualquer pequeno defeito - que era assim chamado, porque amor entre nós não havia. E quando sentimento não há, falhas são apenas falhas; defeituosas e abismais. Talvez se as afinidades fossem maiores, o coração talvez acordasse. O meu tão grande, e apressado, correndo contra o tempo. O seu tão clandestino e amoral; diminuto. Desiguais, e ainda assim, desacordados. Desencaixados. Mas no meu detalhismo excêntrico, em ler tudo que me passa pela frente, e escrever como quem vomita o que tem por dentro e na sua leveza de viver, e se viciar em seriados - enquanto eu mesma prefiro filmes - ficava difícil encontrar um denominador comum, frente à tantas, e gritantes diferenças. Simplesmente porque de amor, essa história não tinha nada. Apenas uma saudade que perdurava aqui, e não ecoava aí, do seu lado de ilha solitária, que é a vida cabalística a que nos submetemos.
Não foi amor. Foi uma hombridade esquecida, uma homogeneidade inexistente, uma angústia ambulante. Algumas corridas de táxi, e um brio acelerado. Um ritmo nunca acertado, notas desordenadas e descompostas. Apenas uma alergia à completude e um temor da felicidade. Uma fuga antes do tempo exato. Muitas palavras, quando o melhor era sair com a cabeça erguida (mesmo quente), e a boca cerrada. Erros, não só de execução, como de partida. Anomalias amáveis, e um crime irresistível de não cometer. Vontade de acertar, e pouca força para alcançar o topo, o feito. Desatino. Se fosse amor, obrigatoriamente, singular seria. Porque não é, e esperei que fosse. Que houvesse no mínimo coragem, ou alguma força maior por trás dessa adrenalina toda, para transformar. Paixão, quem sabe. Paz, não vi. Sair do que não existiu, deixa sempre a pulga atrás da orelha, de como seria se tivesse então deslanchado. O que vale é se lembrar sempre, e cada vez mais que, se não aconteceu, teve motivos suficientes para ficar adormecido. Que assim seja, e as lembranças boas não se percam por entre dias frívolos e cinzentos; perpetuem apenas na memória, e acrescentem como aprendizado."
Camila Paier
sábado, 14 de agosto de 2010
Fala coração ...
"Oi, como vai você? Eu vou mal e, nossa, muito mal. Aí você logo de cara já fica se perguntando quem sou eu que já cheguei dizendo como estou. Sou teu coração, obrigado por dar atenção desta vez quando eu falo, né, porque até ontem você nem se quer me ouvia. Eu podia me encolher de frio ou batucar no teu peito como escola de samba na avenida que você não estava nem aí.Por que faz isso com você mesmo? Finge estar tudo bem para todos a tua volta, como se aqui dentro não estivesse tudo de cabeça para baixo. Por que você fica sorrindo para todo mundo se aqui dentro chove horrores com as tuas lágrimas? Sabia que sinto aqui dentro tudo isso? Teus problemas, tuas dificuldades, fraquezas e mágoas.
Aqui, bem a cima de mim, tinha uma lâmpada, agora ela está partida em pequeninos cacos de vidros, e estes estão espalhados por toda parte a perfurar cada centímetro de mim. Esta lâmpada esteve uma vez acesa. Lembra quando foi? Naquela época em que eu dava saltos aqui dentro porque você me alimentava com palavras de alegria, paz, tranquilidade, conforto. Era tão grande a luz, que iluminava tudo aqui dentro. A luz da lâmpada que tem aqui dentro é movida a felicidade e, por um bom tempo, ela permaneceu acesa. Eu nem se quer descansava, era festa dia e noite!
Mas como eu sou sempre sincero, preciso dizer: não sei o que é que está fazendo com a tua vida agora. Porque derrepente começaram a surgir medos enormes daqueles problemas tão pequenos, mágoas e mais mágoas. A luz foi ficando cada vez mais fraca até que se apagou e logo após, explodiu. Até então, as coisas por aqui ficaram frias, cada vez mais escuro. Antes eram gritos de alegria por todos os lados, agora eu ouço minha voz ecoando a pedir por socorro. E você? Você fingia que não escutava. Graças a Deus hoje você decidiu parar para me ouvir."
Aqui, bem a cima de mim, tinha uma lâmpada, agora ela está partida em pequeninos cacos de vidros, e estes estão espalhados por toda parte a perfurar cada centímetro de mim. Esta lâmpada esteve uma vez acesa. Lembra quando foi? Naquela época em que eu dava saltos aqui dentro porque você me alimentava com palavras de alegria, paz, tranquilidade, conforto. Era tão grande a luz, que iluminava tudo aqui dentro. A luz da lâmpada que tem aqui dentro é movida a felicidade e, por um bom tempo, ela permaneceu acesa. Eu nem se quer descansava, era festa dia e noite!
Mas como eu sou sempre sincero, preciso dizer: não sei o que é que está fazendo com a tua vida agora. Porque derrepente começaram a surgir medos enormes daqueles problemas tão pequenos, mágoas e mais mágoas. A luz foi ficando cada vez mais fraca até que se apagou e logo após, explodiu. Até então, as coisas por aqui ficaram frias, cada vez mais escuro. Antes eram gritos de alegria por todos os lados, agora eu ouço minha voz ecoando a pedir por socorro. E você? Você fingia que não escutava. Graças a Deus hoje você decidiu parar para me ouvir."
quinta-feira, 5 de agosto de 2010
Libertar a minha alma maltratada para o novo.
“Depois de uns dias mudos e inertes, onde eu movimentava e aludia meus feelings de egoísmo ou culpa, posso hoje libertar a minha alma maltratada para o novo. Por mais cansativa ou sentimental, e pior, boazinha que toda essa minha oratória lamuriante tenha se desdobrado, abro sorrisos de sensação boa. Dever cumprido. Eu só não queria essas explicações pela metade, uns ódios querendo desesperadamente ser amor. Negativo. Pela metade, é algo que não implementei no meu dicionário existencial - e nem pretendo. Assim como você, infantilmente, pensa que sabe todas as respostas do mundo, as minhas não. Não imaginava, porém, que essa minha instabilidade te afetasse de tal maneira, emburrada e inflexível. Pareci suplicante, mas ao menos demonstrei minha essência humanitária.”
(Camila Paier)
(Camila Paier)
Não nomeio o que sinto.
“Não nomeio o que sinto. Nem ao menos, o que vivo. Apenas, estou feliz, estou indo. Na minha independência maior de idade, no meu detalhismo insistente, continuo a mesma. E afinal, nem foi tão ruim assim. A gente fica triste, mas no outro dia, tem de ser lembrado do que aconteceu. Aquela coisa, sofrer tudo na hora, fazer todas as perguntas, e então, vá passear. Eu continuo apaixonada por sapatos, e pensando que o Brasil podia ser repovoado por gente decente. Ainda sou louca pela minha mãe, e por cintura alta. A mesma, de sempre. Talvez por isso os navios não tenham sido queimados, as rotas ainda estejam latentes, e o sinal verde, aberto. Velhos conhecidos, mundos já descobertos, desnudos. E não é bem o que a gente quer, mas a gente aceita. Não tapa totalmente o buraco, mas conforta por algum tempo, dá uma massageada no ego. Por mais que necessite tempo, pra me achar, pra tudo clarear, são as possibilidades, os acasos que tem seduzido e se insinuado, dançado loucamente sob a minha sacada e na minha alma.”
Camila Paier
Camila Paier
domingo, 1 de agosto de 2010
Pirata não, capitã
"No fundo, Minduim, eu sabia que a gente voltaria a sorrir com os olhos, de frente um pro outro, sem dizer nada, acredita? Pois é, eu tentei mentir pra mim, enganar os outros, e esconder a minha sapiência nesse caso todo. Fugi desse seu magnetismo, opostos que somos. Mas acho que por dentro de toda essa cara fechada, essa marra de independente, auto-suficiente, eu acreditei tanto que o sentimento venceria, que ele se coroou sozinho. E você me diz ter certeza de que tudo seria assim. De que a gente se gosta, e que passaria. Não sei bem se passou, mas depois de algum tempo, acho que deve passar. A gente sabe disso, e tem uma fé enorme. Nesse tempo longe, talvez não tenha nos feito mal nenhum. Você sentiu falta também, Minduim? É, eu sei. Também senti. Quis as mãos que tanto aprecio, sob as minhas. Os seus olhos congelando a minha presença, e a fazendo quase insignificante. E por mais que a gente esteja sentados nesse sofá sujo, ou de frente pra televisão, jantando e decidindo detalhes do nosso futuro casamento, que nunca ocorrerá, eu sinto o cheiro da mudança. Não sei se a sua, mas acho que a minha. Quem sabe, a situação toda. Virou irônica, complexada, enigmática e muito mais desafiadora. Excitante. Confesso que saí de baixo de chuva, às pressas e ansiosa, pra tirar a prova. Dar o veredicto final, do que tanto se debatia em confusão, dentro de mim. E comemore, Minduim: você passou no teste! Preferia que você me esperasse pra festa começar, se assim possível. Eu continuo sendo meio impulsiva e urgente; apaixonada. Espero que você lembre, porque tá marcado na essência, e são notas assim imutáveis. Se bem que, no mínimo, você deve achar toda essa minha malemolência emocional um tanto quanto charmosa; pra voltar, pra ser como sempre foi, mesmo depois de meses afastados. Senti uma falta desse teu perfume, da tua barba mal feita - que você sabe, me deixa louca.
Imagine você, Minduim, sou ainda a irrequieta que te deixa um mimo na portaria. Eu, que nem em delírio completo imaginei coragem alguma pra fazer isso. Me lembrou você, comprei e deu. Não pude te ver, mas senti teu sorriso ao agradecer efusivo, e feliz. E mesmo que essa saudade esteja me matando agora, e desde já, e tantos dias ainda venham pela frente, eu estou forte, te disse? Tenho consciência agora do que ocorre, e acho que não surto mais, como daquela primeira e última vez. Fico incrivelmente serena e um pouco boba, que todos estranham. E penso que tudo vai tarde certo, Minduim, e que por mais dias que você permaneça muito longe, quando você voltar, tudo volta à ordem natural das coisas, e eu vejo teu sorriso alguma vez mais. Não tenho nenhuma certeza, mas apenas uma fé gigante, como me é de costume, e um coração meia-boca, de tanto pifar. Espero que dê, como crédito. A única coisa que sei, é que queria você aqui comigo agora, pra ver essa paisagem absurda, de tão bonita, e me aquecesse, porque faz frio e você sabe como me esquentar, excelentíssimo. Porque eu acabo gostando até desses seus sumiços, e aprendi a ser um pouco assim também, contigo. Provo dessa sua jogatina bizarra e complexa, e entendo melhor o mundo inteiro - menos o que se passa em mim, em ti, na sua cabeça, no meu sentimento. Acho graça também na sua letra desfocal, nas pequenas semelhanças que reconhecemos, um no outro. Minduim, não te largo. Que bobagem...Já te disse que, quando você voltar, se não me raptar como proposto, eu te roubo, pra sempre. Pirata que sou, sei achar o tesouro. E você sabe disso, meu querido. Me deixe pilotar mais esse barco em que estamos os dois, e não compreendemos coisa alguma (por mais que, eu tenha mais vocação pra ser o papagaio que no ombro fica, do que para ler mapas e traçar destinos). Corsário, e sem perna de pau, posso piratear na vida, na fala, nos sonhos, mas com você não. Confie em mim, marujo, que tenho mais vocação pra sereia do que pra capitã - e sem gancho na mão, por favor. Seria um pouco brega, não acha Minduim?
Enfim, me ocorre que entre tantos caminhos, meu barco talvez tenha aqui parado, porque há tanto ainda a ser descoberto, que seria quase pecado esquecer tudo agora, no meio. Entre rotas passadas, e caminhos futuros, fico suspensa entre dois momentos, amortecida entre o que não foi, e quiçá virá. Escrevo até mesmo no chão as coordenada pra que eu encontre o que te faz ficar, de vez - lançar minha âncora. Volte logo, Minduim! Pra que nada se perca, e esse ciclo se complete. Porque quem volta, retorna sempre por algum motivo. Eu sou o seu, pode ser?
Ass: pirata não, capitã."
Camila Paier
Imagine você, Minduim, sou ainda a irrequieta que te deixa um mimo na portaria. Eu, que nem em delírio completo imaginei coragem alguma pra fazer isso. Me lembrou você, comprei e deu. Não pude te ver, mas senti teu sorriso ao agradecer efusivo, e feliz. E mesmo que essa saudade esteja me matando agora, e desde já, e tantos dias ainda venham pela frente, eu estou forte, te disse? Tenho consciência agora do que ocorre, e acho que não surto mais, como daquela primeira e última vez. Fico incrivelmente serena e um pouco boba, que todos estranham. E penso que tudo vai tarde certo, Minduim, e que por mais dias que você permaneça muito longe, quando você voltar, tudo volta à ordem natural das coisas, e eu vejo teu sorriso alguma vez mais. Não tenho nenhuma certeza, mas apenas uma fé gigante, como me é de costume, e um coração meia-boca, de tanto pifar. Espero que dê, como crédito. A única coisa que sei, é que queria você aqui comigo agora, pra ver essa paisagem absurda, de tão bonita, e me aquecesse, porque faz frio e você sabe como me esquentar, excelentíssimo. Porque eu acabo gostando até desses seus sumiços, e aprendi a ser um pouco assim também, contigo. Provo dessa sua jogatina bizarra e complexa, e entendo melhor o mundo inteiro - menos o que se passa em mim, em ti, na sua cabeça, no meu sentimento. Acho graça também na sua letra desfocal, nas pequenas semelhanças que reconhecemos, um no outro. Minduim, não te largo. Que bobagem...Já te disse que, quando você voltar, se não me raptar como proposto, eu te roubo, pra sempre. Pirata que sou, sei achar o tesouro. E você sabe disso, meu querido. Me deixe pilotar mais esse barco em que estamos os dois, e não compreendemos coisa alguma (por mais que, eu tenha mais vocação pra ser o papagaio que no ombro fica, do que para ler mapas e traçar destinos). Corsário, e sem perna de pau, posso piratear na vida, na fala, nos sonhos, mas com você não. Confie em mim, marujo, que tenho mais vocação pra sereia do que pra capitã - e sem gancho na mão, por favor. Seria um pouco brega, não acha Minduim?
Enfim, me ocorre que entre tantos caminhos, meu barco talvez tenha aqui parado, porque há tanto ainda a ser descoberto, que seria quase pecado esquecer tudo agora, no meio. Entre rotas passadas, e caminhos futuros, fico suspensa entre dois momentos, amortecida entre o que não foi, e quiçá virá. Escrevo até mesmo no chão as coordenada pra que eu encontre o que te faz ficar, de vez - lançar minha âncora. Volte logo, Minduim! Pra que nada se perca, e esse ciclo se complete. Porque quem volta, retorna sempre por algum motivo. Eu sou o seu, pode ser?
Ass: pirata não, capitã."
Camila Paier
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