domingo, 1 de agosto de 2010

Pirata não, capitã

"No fundo, Minduim, eu sabia que a gente voltaria a sorrir com os olhos, de frente um pro outro, sem dizer nada, acredita? Pois é, eu tentei mentir pra mim, enganar os outros, e esconder a minha sapiência nesse caso todo. Fugi desse seu magnetismo, opostos que somos. Mas acho que por dentro de toda essa cara fechada, essa marra de independente, auto-suficiente, eu acreditei tanto que o sentimento venceria, que ele se coroou sozinho. E você me diz ter certeza de que tudo seria assim. De que a gente se gosta, e que passaria. Não sei bem se passou, mas depois de algum tempo, acho que deve passar. A gente sabe disso, e tem uma fé enorme. Nesse tempo longe, talvez não tenha nos feito mal nenhum. Você sentiu falta também, Minduim? É, eu sei. Também senti. Quis as mãos que tanto aprecio, sob as minhas. Os seus olhos congelando a minha presença, e a fazendo quase insignificante. E por mais que a gente esteja sentados nesse sofá sujo, ou de frente pra televisão, jantando e decidindo detalhes do nosso futuro casamento, que nunca ocorrerá, eu sinto o cheiro da mudança. Não sei se a sua, mas acho que a minha. Quem sabe, a situação toda. Virou irônica, complexada, enigmática e muito mais desafiadora. Excitante. Confesso que saí de baixo de chuva, às pressas e ansiosa, pra tirar a prova. Dar o veredicto final, do que tanto se debatia em confusão, dentro de mim. E comemore, Minduim: você passou no teste! Preferia que você me esperasse pra festa começar, se assim possível. Eu continuo sendo meio impulsiva e urgente; apaixonada. Espero que você lembre, porque tá marcado na essência, e são notas assim imutáveis. Se bem que, no mínimo, você deve achar toda essa minha malemolência emocional um tanto quanto charmosa; pra voltar, pra ser como sempre foi, mesmo depois de meses afastados. Senti uma falta desse teu perfume, da tua barba mal feita - que você sabe, me deixa louca.
Imagine você, Minduim, sou ainda a irrequieta que te deixa um mimo na portaria. Eu, que nem em delírio completo imaginei coragem alguma pra fazer isso. Me lembrou você, comprei e deu. Não pude te ver, mas senti teu sorriso ao agradecer efusivo, e feliz. E mesmo que essa saudade esteja me matando agora, e desde já, e tantos dias ainda venham pela frente, eu estou forte, te disse? Tenho consciência agora do que ocorre, e acho que não surto mais, como daquela primeira e última vez. Fico incrivelmente serena e um pouco boba, que todos estranham. E penso que tudo vai tarde certo, Minduim, e que por mais dias que você permaneça muito longe, quando você voltar, tudo volta à ordem natural das coisas, e eu vejo teu sorriso alguma vez mais. Não tenho nenhuma certeza, mas apenas uma fé gigante, como me é de costume, e um coração meia-boca, de tanto pifar. Espero que dê, como crédito. A única coisa que sei, é que queria você aqui comigo agora, pra ver essa paisagem absurda, de tão bonita, e me aquecesse, porque faz frio e você sabe como me esquentar, excelentíssimo. Porque eu acabo gostando até desses seus sumiços, e aprendi a ser um pouco assim também, contigo. Provo dessa sua jogatina bizarra e complexa, e entendo melhor o mundo inteiro - menos o que se passa em mim, em ti, na sua cabeça, no meu sentimento. Acho graça também na sua letra desfocal, nas pequenas semelhanças que reconhecemos, um no outro. Minduim, não te largo. Que bobagem...Já te disse que, quando você voltar, se não me raptar como proposto, eu te roubo, pra sempre. Pirata que sou, sei achar o tesouro. E você sabe disso, meu querido. Me deixe pilotar mais esse barco em que estamos os dois, e não compreendemos coisa alguma (por mais que, eu tenha mais vocação pra ser o papagaio que no ombro fica, do que para ler mapas e traçar destinos). Corsário, e sem perna de pau, posso piratear na vida, na fala, nos sonhos, mas com você não. Confie em mim, marujo, que tenho mais vocação pra sereia do que pra capitã - e sem gancho na mão, por favor. Seria um pouco brega, não acha Minduim?
Enfim, me ocorre que entre tantos caminhos, meu barco talvez tenha aqui parado, porque há tanto ainda a ser descoberto, que seria quase pecado esquecer tudo agora, no meio. Entre rotas passadas, e caminhos futuros, fico suspensa entre dois momentos, amortecida entre o que não foi, e quiçá virá. Escrevo até mesmo no chão as coordenada pra que eu encontre o que te faz ficar, de vez - lançar minha âncora. Volte logo, Minduim! Pra que nada se perca, e esse ciclo se complete. Porque quem volta, retorna sempre por algum motivo. Eu sou o seu, pode ser?
Ass: pirata não, capitã."
Camila Paier

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