"Olha embaixo da cama, apenas os pares de sapatos distintos, amáveis. Vasculha gavetas, papéis antigos e quem sabe importantes, armários, e suas roupas desarrumadas, a desordem habitual de tudo. Bichinhos de pelúcia na estante. Lembranças antigas no mural. Uma pulseira, um jornal de três anos atrás, e vinte ou quinze fotos. Televisão ligada; passa todos os canais, não permanece em nenhum. Nada me agrada, nenhuma sensação me mantém ligada, não me encontro onde me procuro. E as pessoas, cara, essas gentes estão cada vez mais superficiais e desinteressantes, ávidas de alguma vibração conjunta, cúmplice. Preciso da minha própria solidão, para reencontrar tudo que aqui dentro anda bagunçado. E tenho tentado em vão, procurar respostas do lado de fora. Que, incrédula, nunca acho. Reflito, perna direta sob a perna esquerda, perna esquerda sob a perna direita. Em posição de índio. E nada me vêm à mente. Branco, vermelho, figuras psicodélicas. E nenhuma resposta. Nada do que sinto é desvelado. E o que penso, e preferia exorcizar, continua de pé; prontamente para me assombrar, puxar meu pé quando adormecida profundamente.
Lembro: me esvaziar. Dica de tantos, conselho de alguns. Largar de mão o antigo, para alçar novos vôos, mil oportunidades à frente. E não consigo. Preciso de ajuda para largar esse cordão celestial que ainda insisto em segurar - e que, de bom, nada me acrescenta. Te solta, menina.Vai! E se cair? Se a queda for pior que a sensação de estar suspensa no ar, sem possibilidade de me movimento e reclamação? O que seria pior do que se jogar no que ainda não conheço? Decidi: me desprendo. E seja talvez o que Deus quiser; ou, o que eu mais precise. Não as tão questionadas respostas, que tanto vasculhei. Mas sim a vida, a vivacidade do meu sorriso, a utilidade das minhas palavras. Retirar tudo isso tem sido cansativo. Me dói o corpo inteiro. E algumas vezes me pego nostálgica, vislumbrando o horizonte, dando um beijo nas estrelas. Ontem chorei duas vezes, e logo passou. E então, lia algo que me deixasse comovida, ou fizesse respirar mais fundo, e pensava em sumir do mapa - sem vestígios, nem passos e pistas. Tem sido complicado, mas eu rezo e ainda acredito. Quando a gente lembra que já passou por tudo isso, e que apenas faz parte de um ciclo, vê a tal luz no fim do túnel, e fica mais fácil atravessar os dias, dois meses. E sabe que algum dia, vai rir com a mão na cabeça dessa situação toda, e se perguntar: "Deus, eu era assim tão frívola, e fútil, uma boba?" Talvez ele responda que eu fosse uma apaixonada, uma sonhadora. Inconsequente. Quem sabe, ele diga que sem todo esse sofrimento, eu não estaria pronta para receber toda essa completude que eu muito pedi, e aqui nunca chegou; extraviada. Sei que as respostas chegam sempre atrasadas, e quando não mais necessárias. Viver com esse silêncio me mata por dentro oportunamente, mas tem sido melhor, e mais sábio. Essa falta de personagens importantes tem atrasado todo um roteiro, mas acredito que seja nas cenas futuras que tudo se perpetua. E tudo que eu procuro são por quês desenganados, carinho imensurável, e uma distração que valha a pena, que faça sentido. Não achei na saia nova, e nem nos sapatos rosas. Nem na noite de ontem, e no dia de hoje. No chimarrão não sorvi, no bolo muito menos. No perfume, apenas uma saudade que me corta feito faca desafiada - dilacerante. Se não chegar nos próximos dias, eu invento. Porque quando há amor, o faltar a gente cria. Com papéis laminados, e tesoura sem ponta. Cola, para firmar e não deixar cair. Um mundo meu, que não machuque e brilhe aos montes. E tenha dias frios, e com sol, e cheiro de bergamota nas mãos. Muita cor, alguma trilha sonora, e desvios de script, que é pra emocionar furtivamente. Daí sim, durmo feliz e em paz. Boa noite, papai do céu."
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